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O efeito do fumo de Marijuana: é a canábis um aumento de performance desportiva?

A legalização do consumo de marijuana parece ser apenas uma questão de tempo, mas o seu uso, tem ganhos na performance física? E, para o crescimento dos músculos – o que nos dizem as pesquisas?

A generalização do consumo de marijuana pela população em geral, perceciona que a sua legalização estará a distância de um par de anos para muitos países. O consumo de marijuana para fins recreativos encontra ainda mais entusiastas no mundo do culturismo e do fitness. Muitos usam-na apenas para relaxar. Outros porque acreditam que o seu uso acarreta ganhos atléticos e de crescimento dos músculos. Muitos outros estão preocupados que o seu uso prolongado tenha um efeito contraproducente no treino.

Ainda que haja um longo caminho a ser feito em termos de pesquisa sobre o uso de marijuana e a performance desportiva, já existem estudos suficientes para que possam ser afiadas algumas respostas. E aceite já de forma generalizada pela comunidade cientí- fica que fumar ou ingerir marijuana diminui o tempo de reação, baixa o nível de atenção/concentração e reduz a coordenação do corpo, nomeadamente a habilidade motora olho-mão (“Cannabis and sport” em J Sports Med).

Os estudos demonstram existir um claro défice cognitivo nas horas seguintes após a inalação de marijuana, o que leva a uma menor coordenação motora, o que por sua vez aumenta significativamente o número de erros, tanto graves como leves, em tarefas que exigem um grau de concentração mais elevado.

A explicação para este decréscimo, como avançado pelo Dr. Boles Ponto e colegas, pode ser explicada pelo diferencial do fluxo sanguíneo no cérebro (Acute marijuana effects on rCBF and cognition: a PET study em NeuroReport).Neste mesmo estudo, os cérebros foram fotografadas pela Positron Emission Tomography (PET) para medir os efeitos agudos de fumar marijuana. No estudo, os indivíduos realizaram tarefas de atenção auditiva antes e depois de inalarem o fumo.

Em poucos minutos, verificou-se que existiu uma redução substancial do fluxo sanguíneo para o lobo temporal, uma área importante para tarefas que exijam elevada concentração. Curiosamente, fumar marijuana aumenta de fluxo sanguíneo em outras regiões do cérebro, tais como os lobos frontais e regiões associadas a tomada de decisão, a percepção sensorial, ao comportamento sexual, e às emoções.

Os estudos sugerem então, que em competição, a inalação por fumo da planta de canábis, não é uma boa opção. Afinal, os atletas precisam de ser capazes de tomar decisões rápidas e os seus reflexos precisam de estar apuradíssimos. Num treino que incorpore novos exercícios, e se pretenda evoluir, e maximizar o desempenho, a marijuana também não parece ajudar.

O efeito da canábis no corpo

Os efeitos do uso da marijuana no organismo podem variar de acordo com as características do corpo de cada pessoa, com seu estado de espírito, com o ambiente que a rodeia e com as características da planta. Partindo para uma definição mais técnica, a legislação define marijuana como todas as partes da planta cannabis sativa (que contém mais de 700 compostos químicos). Os ingredientes cativos principais são canabinóides, incluindo THC, que é responsável por efeitos psicoativos e é a mais estudada.

As concentrações sanguíneas máximas de canabinóides ocorrem entre 3-8 minutos depois da inalação, ao contrário dos 60 a 90 minutos da ingestão da planta, começando os primeiros efeitos a surgir cerca de vinte minutos depois. Os efeitos duram aproximadamente entre 2 a 5 horas.

A canábis contém pelo menos 60 tipos de canabinóides, compostos químicos que agem sobre os receptores em todo o nosso cérebro. O THC, ou tetrahidrocanabinol, é o produto químico responsável pela maior parte dos efeitos da planta, incluindo a euforia intensa. Ele assemelha-se a outro canabinóide produzido naturalmente no nosso cérebro, a anandamida, que regula o nosso humor, sono, memória e apetite.

Essencialmente, o efeito dos canabinóides no nosso cérebro é fazer dispara os neurônios sucessivamente, ampliando os pensamentos e a percepção da realidade, seguindo a seguinte sequência: canabinóides ligam-se aos receptores de canabinóides em neurônios e células periféricas, normalmente produzidas pelo próprio organismo, chamadas de endocanabinóides, mas que podem também ser importadas pelo consumo de outras substâncias. Por sua vez os THC ligase ao receptor canabinóide1(CB1), localizadas principalmente no cérebro, enquanto que o canabinol (CBN) liga-se ao CB2, que se localiza nas células do sistema imunológico.

Marijuana Vs Crescimento muscular

Pesquisadores descobriram que a administração de tetrahidrocanabinol (THC), o produto químico responsável pela maioria dos efeitos psicológicos da marijuana, em uma dose de 210 miligramas por dia durante 14 dias, resultou em uma diminuição na proporção de 3 vezes do crescimento da resposta hormonal (Depression of growth hormone and cortisol response to insulin-induced hypoglycemia after prolonged oral delta-9-tetrahydrocannabinol administration in man em Pubmed). É importante ressalvar, que 210 miligramas é uma dose maciça de THC, pessoas com baixa tolerância sente os primeiros efeitos com apenas 25 miligramas por dia, e mesmo utilizadores reguladores e com altos índices de resistência, seriam necessários apenas 80 miligramas para que disparassem os primeiros efeitos.

Os estudos demonstram existir um claro défice cognitivo nas horas seguintes após a inalação de marijuana, o que leva a uma menor coordenação motora, o que por sua vez aumenta significativamente o número de erros, tanto graves como leves, em tarefas que exigem um grau de concentração mais elevado

Alguns estudos indicam que após a utilização de marijuana por pelo menos quatro dias por semana, durante seis meses, o nível de testosterona exibida pelos homens baixava substancialmente, um desses estudos chegue a apontar uma descida de 44%, baixa, quando comparados com homens que nunca tinham experimentado a substancia. (Esta é talvez uma das questões mais polemicas sobre o tema, já que vários estudos se contradizem uns aos outros sistematicamente).

Marijuana Vs Efeito Hormonal

As hormonas são extremamente importantes para a saúde em geral, e ainda mais importante para a performance desportiva e para o crescimento muscular e ganhos de força. Os estudos neste ponto, são consistentes, e insistem que a inalação de marijuana provoca alterações hormonais desfavoráveis.

O consumo regular de marijuana mostrou ter alterações no hipotálamopituitária-adrenal (HPA). Mesmo em pequenas doses de THC, reduziu imediatamente a hormona luteinizante (LH) e elevou o cortisol – uma hormona associado ao stress e que em alguns utilizadores provocou sintomas de paranoia (The Emerging Role of the Endocannabinoid System in Endocrine Regulation and Energy Balance em Endocrine).

Os efeitos hormonais da marijuana sobre as mulheres são ainda mais complexas pelas óbvias flutuações hormonais dependendo do ciclo menstrual. E isto, porque o THC compete com estradiol para ligar os recetores de estrogênio. No geral, não se encontraram evidências definitivas de que a marijuana reduz as hormonas sexuais a longo prazo, ainda que possa provocar alterações durante curtos períodos de tempo, algo compreendido entre as 24 e 48 horas.

Por fim, não está ainda claro, por mera observação, se a inalação regular de marijuana leva a perda ou ganho de peso. Contra intuitivamente, um estudo epidemiológico do ano de 2013 mostrou que as taxas de obesidade são significativamente mais baixas para todos os grupos de consumidores de cannabis (inclusive de sexo e idade) em comparação com aqueles que não tinham consumido cannabis nos últimos 12 meses. As pesquisas ainda agora começaram, e há um longo caminho a percorrer, até uma conclusão final, mas pelo menos por agora, quando se trata de exercício e atividade física, a literatura sobre o tema, indica que fumar ou ingerir Canábis é desaconselhável e prejudicial para o rendimento desportivo.

Texto de André Cardoso dos Santos publicado originalmente da nossa Revista Desporto&Esport ed 10

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